Taxa das blusinhas: o que os números mostram
Saiu o primeiro estudo de impacto da “taxa das blusinhas”, a tarifa de 20% sobre remessas internacionais de até US$ 50.
Vale olhar com calma, porque os números ajudam a entender o que funciona em política comercial.
O estudo é da Global Intelligence and Analytics, coordenado pelo professor Lucas Ferraz, da FGV. A ideia original era proteger o varejo nacional e gerar empregos. Faz sentido na teoria. Os dados contam outra história.
No período analisado, a inflação oficial foi de 5,23%. Já os preços das categorias afetadas subiram bem acima: cosméticos 17%, bijuterias 16%, papelaria 13%, calçados 9% e vestuário 7,1%. Quando se reduz a pressão competitiva externa, parte do espaço vira aumento de preço na ponta.
No mercado de trabalho, nenhum efeito relevante. Salário e emprego no varejo protegido andaram no mesmo ritmo dos setores não beneficiados. A geração de empregos prometida não apareceu nos números.
E há um ponto distributivo importante: 67,5% dos consumidores dessas plataformas eram das classes C, D e E. Na prática, a tarifa virou um imposto regressivo sobre roupa, cosmético e material escolar.
A conta fiscal também decepciona. A arrecadação direta bateu recorde em 2025 (R$ 5 bilhões), mas o volume de remessas caiu mais de 23 milhões entre 2024 e 2025, derrubando a receita dos Correios. A estatal opera hoje com prejuízo bilionário, demitindo 15 mil pessoas e fechando mil agências. O ganho tributário foi praticamente neutralizado pelo rombo.
Outros países seguiram caminho diferente. Austrália isenta compras até AUD 1.000 e cobra das plataformas na origem. Reino Unido faz parecido, com IVA na fonte. EUA mantêm isenção até USD 800 e focam fiscalização em fraude. Em todos os casos, o Estado arrecada sem encarecer o produto final.
O que o caso brasileiro sugere é simples: o desenho da política importa tanto quanto a intenção. Tarifa alta na ponta, sem cadastro de plataformas e sem foco em sonegação, tende a fazer três coisas ao mesmo tempo - preço sobe, base tributável encolhe e o peso recai sobre quem ganha menos.