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Cris Monteiro · NOVO
Artigo

O dinheiro público merece o rigor que o mercado exige do dinheiro privado

Com mais de 30 anos em bancos como JPMorgan, Goldman Sachs e Bank of America, onde foi diretora de auditoria e compliance, a vereadora e candidata a deputada federal Cris Monteiro (NOVO 3011) propõe levar esse rigor ao governo federal, com medidas como a Ficha Limpa Fiscal.

Por Cris Monteiro · Publicado em

O debate sobre as contas públicas no Brasil costuma girar em torno de quanto o governo gasta. Pouco se discute o quanto ele controla o que gasta. Esse é um lado do problema que costuma ficar fora do debate.

Um exemplo basta. Segundo o Tribunal de Contas da União, até abril de 2025 havia 22.621 obras financiadas com recursos federais no país, e 11.469 delas estavam paralisadas: 50,7% do total, com R$ 15,9 bilhões já investidos em empreendimentos que não foram concluídos. Educação e saúde concentram 70% das paralisações. E o problema não é só herança: das 5.505 obras iniciadas entre abril de 2024 e abril de 2025, cerca de 1.200 já estavam paradas. Boa parte delas são escolas e postos de saúde pagos pelo contribuinte que ainda não atendem a população. Obras param por muitos motivos, de projeto malfeito a problema de licenciamento ou abandono da empreiteira. Em todos eles, há perguntas que um sistema de controle faz cedo e o setor público costuma fazer tarde: quem acompanhava, quando o problema apareceu e o que foi feito.

O que o mercado financeiro faz diferente

Passei mais de 30 anos em bancos de investimento: JPMorgan, Goldman Sachs e Bank of America. Fui diretora de Auditoria e de Compliance para a América Latina, CFO, COO e, no último cargo, diretora de Controles para América Latina e Canadá no JPMorgan. Em nenhum desses lugares um projeto pela metade, com metade do dinheiro gasto, passaria despercebido. Haveria auditoria, um responsável identificado e consequência.

Isso não acontece porque banqueiros sejam mais honestos que gestores públicos. Acontece porque o sistema é desenhado para isso. Quem executa cuida dos próprios controles, mas não é o único a olhar: há uma área de risco e compliance que acompanha o dia a dia e uma auditoria independente que responde a instâncias acima da operação. Cada real tem origem, destino e alguém que responde por ele. Os controles existem para que o erro apareça cedo, antes de virar prejuízo.

Também aprendi que carreira não é linha reta. Em 2001, saí do JPMorgan como CFO do banco e assumi a mesma função no Goldman Sachs. Dois anos depois, estava desempregada. Voltei ao JPMorgan passando pelo processo seletivo como qualquer candidato, e justamente para a auditoria, área de onde eu tinha jurado sair para nunca mais voltar. Foi lá que entendi de vez que controle não é burocracia: é o que permite saber se uma organização está entregando o que promete.

O que levei para a Câmara Municipal

Entrei na política aos 55 anos com esse método. Na Câmara Municipal de São Paulo, sou autora, da Lei 17.901/2023, que consolidou a Política Municipal de Dados Abertos e Transparência Ativa. Informação pública precisa estar acessível e em formato que qualquer cidadão, jornalista ou pesquisador consiga analisar: é o equivalente público de um balanço auditável.

Decidi também que minhas emendas parlamentares não seriam moeda de troca. Desde 2021, os projetos que recebem esses recursos são escolhidos por edital público, pelo mérito, e não por indicação política. No primeiro edital, 71 projetos se inscreveram. O edital de 2026 segue aberto a qualquer pessoa ou organização com um bom projeto para a cidade.

O que quero levar para Brasília

No governo federal, a escala do problema é outra, e os instrumentos precisam estar à altura. Proponho regras de compliance para toda a administração federal, com padrões nacionais de gestão de riscos, auditoria e controles internos, e uma nova Lei das Estatais, com critérios técnicos mais rígidos para cargos de direção e conselho, porque empresa pública não pode ser cabide de indicação política.

Proponho também a Ficha Limpa Fiscal: o gestor que descumprir deliberadamente os limites de despesa e as metas fiscais definidos em lei durante quatro anos consecutivos ficaria inelegível por até oito anos. Hoje, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a legislação penal já punem uma série de irregularidades, mas não existe consequência eleitoral específica para quem descumpre as metas fiscais de forma deliberada e repetida. Como cria nova hipótese de inelegibilidade, a mudança tem de ser feita por lei complementar, com definição clara do que é descumprimento deliberado e de quem o julga. Completam o eixo um teto permanente para os gastos do Governo Federal com publicidade oficial e a proibição de criar ou ampliar programas sociais não emergenciais nos 12 meses anteriores às eleições, ampliando a restrição que a lei eleitoral já impõe no ano da eleição.

"Governo não é empresa"

É verdade, e ninguém está propondo que o Estado dê lucro. Mas uma escola também tem meta: ficar pronta e ensinar. Um posto de saúde tem meta: atender. Controle serve para saber se isso aconteceu, com quanto dinheiro e por responsabilidade de quem. É verdade que o setor público tem regras que uma empresa não tem: só pode fazer o que a lei permite, depende de orçamento aprovado e já conta com órgãos de controle como a CGU e o TCU. Mas esses órgãos atuam, em geral, depois que o dinheiro foi gasto. Compliance e controle interno servem para que o problema apareça antes. Também é justo perguntar se a Ficha Limpa Fiscal puniria um gestor por uma crise que não causou. Não puniria: a proposta alcança o descumprimento deliberado e repetido por quatro anos, não um ano ruim, e situações de calamidade ou crise reconhecidas em lei teriam de ficar fora da regra.

No mercado, quem descumpre metas responde por isso. No setor público, deveria ser igual. É esse rigor que aprendi em 30 anos de carreira e que quero levar para o Congresso.

Sobre a autora

Cris Monteiro é vereadora de São Paulo pelo NOVO, eleita em 2020 e reeleita em 2024, e candidata a deputada federal por São Paulo com o número 3011. Foi diretora no JPMorgan, no Goldman Sachs e no Bank of America em mais de 30 anos de carreira no mercado financeiro. Conheça a trajetória.

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